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O Comércio da Fé

Exploramos o centro da capital cearense, onde artigos religiosos unem fiéis e comerciantes, revelando a força da devoção local.

Reportagem e fotografia por Clara Gantois e Ísis Tavares


Artigos religiosos à venda. Foto produzida pela equipe

DEVOÇÃO

(de.vo.ção)


s.f.

1.    Sentimento religioso; dedicação às coisas religiosas; culto especial a um santo; práticas religiosas.

2.    Observação espontânea dessas práticas.

3.    Dedicação diligente e criteriosa; empenho, entrega, interesse.

4.    Tendência a demonstrar exagero na devoção religiosa; carolice, carolismo.

5.    Objeto de especial veneração.


Etimologia: Do latim devotìo, -ónis, "ação de se dedicar, voto com que alguém se dedica, se consagra, culto, maldição."

 

A definição trazida pelo Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa aponta a devoção como um ato, uma prática diligente de culto religioso que, desde suas raízes históricas do latim, traz o ato de devoção como um ato de dedicação ao divino. Saindo dos verbetes das páginas de dicionários, não é difícil encontrar a prática da devoção nas rotinas dos brasileiros.

 

Para aqueles que seguem a fé de amém, a devoção é um fio invisível que tece o cotidiano. Começa com a oração, um ato sagrado ao acordar, seguido pela bênção dos pais ou avós, onde a mão percorre a testa, os lábios e o peito, e a prece é sussurrada com devoção: "Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, nosso Senhor, dos nossos inimigos”. A benção é selada com o sinal da cruz: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. No vai e vem cotidiano, os lábios sussurram preces, enquanto as mãos seguram contas de terços e rosários e as palavras ecoam: pais nossos, ave marias, mistérios, salve rainha, creio em Deus Pai. E dentro de casa, Jesus crucificado e as nossas senhoras fazem vigília constante, transformando cada lar em uma morada do divino.

 

Aqueles que seguem a tradição do Axé encontram na devoção uma companheira infalível, que se manifesta em uma série de práticas cotidianas. Os banhos de ervas, o uso do branco nas sextas-feiras e as guias de proteção sobrepostas às roupas do dia a dia são testemunhas dessa devoção. Dentro de casa, altares coloridos e bem cuidados são adornados com imagens de orixás e entidades, velas acesas, café e cachimbos oferecidos aos pretos velhos, e moedas e simpatias firmadas para garantir prosperidade no cotidiano. Não importa o lugar, seja na licença para entrar no mar, acompanhada pela saudação a Iemanjá, no 'gole do santo' garantido antes de qualquer brinde, ou no gesto do sinal da figa para proteção, com a mão fechada de maneira que o dedo polegar sobressaia entre o indicador e o médio - demonstram a conexão entre devoção e espiritualidade que permeia cada momento da jornada desses fiéis.

 

Para aqueles que professam sua fé com Aleluia, a devoção se afasta de imagens e simbolismos. A Bíblia é carregada como um dos bens mais preciosos e tem lugar cativo nas casas dos fiéis. Os dias de culto são sagrados, com as melhores roupas sendo retiradas dos guarda-roupas. Nestes momentos, a união entre os irmãos e a devoção ao divino encontram espaço em cada esquina da cidade, desde os templos mais imponentes até as saletas mais modestas. Em todos eles, a devoção torna-se um ato a partir do estudo bíblico, da evangelização e dos louvores professados.

 

O sagrado cotidiano

 

No coração e nos lares dos devotos cearenses, a presença de artigos religiosos é um elo profundo que conecta diferentes crenças e transcende gerações. Imagens, terços, guias e Bíblias vão além de meros objetos; eles se transformam em sagrados receptáculos de fé. Maria do Carmo Umbelino é um exemplo vivo desse legado espiritual. Desde a infância, ela testemunhou sua mãe e avó, mulheres de fé inabalável, entrelaçando as contas do terço em orações fervorosas e a conduzindo à missa.

 

Hoje, aos 53 anos, Maria do Carmo continua a tradição, transmitindo seus ensinamentos aos filhos. Ela os instrui a carregar consigo algo que os proteja, como o medalhão de São Bento, uma relíquia que seu filho mais novo nunca deixa de usar, pendurado no pescoço. Esse medalhão é mais do que um simples objeto; ele é um símbolo da conexão espiritual que une a família, uma proteção contra as incertezas da vida e um testemunho tangível de sua devoção à fé católica. Carregando o amuleto que professa 'A Cruz Sagrada seja minha luz, Não Seja o Dragão meu guia', o filho de Maria do Carmo leva consigo duas bênçãos diárias, uma do santo e outra da mãe, que o guiam e protegem a cada passo.

 

“Os artigos religiosos me fazem aumentar ainda mais a minha fé e me aproximam de Deus”, diz ela. A compra dos artigos é realizada com frequência, principalmente quando frequenta eventos religiosos, e as principais aquisições são terços e livros de oração que a ajudam a rezar.

 

Tal devoção também ecoa no cotidiano do estudante Leonardo Gurgel, social media de 21 anos, que segue a religião protestante. Ele ressalta a importância da Bíblia e de seus livros de estudos no aprofundamento de seu conhecimento sobre sua religião. Para ele, a Bíblia, o 'manual do cristão' como define, o permite se entender como de fato é.

 

“Sabemos que a Bíblia foi escrita por homens, mas temos a convicção por meio da fé que ela foi inspirada pelo próprio espírito de Deus, é um livro imutável e que nele contém verdades de Deus, é um livro escrito há séculos e séculos porém em todas as suas partes se complementam, falando a mesma mensagem, de um Deus vivo em busca de um relacionamento com a sua criação”, pondera Leonardo.

 

Adelmo Alves, um professor de 24 anos, também foi criado no evangelho sob a influência de sua família. Com o tempo, ele expandiu sua espiritualidade, explorando outras tradições, como o catolicismo, no qual teve uma breve passagem. Desde a infância, Adelmo incorporou artigos religiosos em sua prática devocional, adquirindo desde óleos ungidos até bíblias e terços como expressões de sua fé.

 

Há alguns anos, Adelmo encontrou um novo alicerce para sua fé e conexão com o divino na Umbanda, uma religião à qual ele pertence atualmente. Mesmo com a mudança de religião, os artigos religiosos permaneceram como elementos constantes em sua vida, tornando-se ainda mais presentes após sua transição para a Umbanda. Agora, a aquisição quinzenal de velas, a compra de ervas no Mercado São Sebastião e a busca por guias em lojas de artigos religiosos no centro de Fortaleza são parte essencial de seu dia a dia. Adelmo acredita que esses objetos fortalecem sua conexão com a religião, renovam seu propósito e o aproximam de seus guias espirituais.

 

“Eu me sinto motivado porque acho que isso fortalece a nossa fé. O ser humano é muito ligado aos objetos, a tudo aquilo que a gente possui e que a gente conquista. É uma realização, uma renovação de energia muito importante, o ato da compra de tais objetos e de utilizá-los. Adquirir esses elementos faz parte também da religião, do viver a religião”, comenta Adelmo.

 

Vivendo pela Fé: A Jornada de Comerciantes de Artigos Religiosos

 

A devoção não é apenas um sentimento no coração dos fiéis, mas também uma forma de ganhar a vida para muitos comerciantes. No dia 13 de setembro, adentramos nas movimentadas ruas de Fortaleza em busca de duas referências tradicionais no comércio de artigos religiosos: a praça Nossa Senhora de Fátima, na Avenida 13 de Maio, e o Centro da cidade.

 

A escolha da data não foi por acaso. No dia 13 de cada mês, a praça da Igreja de Fátima, situada no bairro Benfica, na movimentada Avenida 13 de Maio, se transforma em um pequeno paraíso para vendedores de artigos católicos. Santinhos, terços e imagens de santos são dispostos nas mesinhas que circundam a pracinha, atraindo o olhar de quem passa.


Uma dessas barraquinhas é de Dona Nira, vendedora aposentada de 70 anos, conhecida por suas camisas com estampas únicas e de fabricação própria. Ela conta que começou as vendas com apenas algumas camisetas, que expunha em caixas no porta-malas do seu Ford-Ka.

 

“Quando eu iniciei eu trabalhava todos os dias que a igreja de Fátima estava funcionando. Mas hoje, eu já não estou mais botando na igreja de fato. Estou só nos dias treze e na pracinha do outro lado da avenida”, relata ela.

 

Dona Nira dedica vocação à Nossa Senhora de Fátima. Foto produzida pela equipe.

Dona Nira construiu boas amizades e uma clientela fiel em seus 20 anos de ocupação como vendedora de artigos religiosos. “Muitas pessoas já me conhecem e vem aqui às vezes só para conversar comigo e eu fico muito feliz”, comemora a vendedora.

A comerciante ainda fortalece seu compromisso com sua fé nos momentos mais importantes para ela. No dia 13 de maio deste ano, Dona Nira tirou um tempinho para agradecer à Nossa Senhora de Fátima, que tem sua festa litúrgica celebrada na data, e então não abriu sua barraquinha para as vendas. “As pessoas me perguntaram ‘Nira, no melhor dia de venda você não vem?’ e eu disse ‘eu não vim para fazer negócio mas eu vim agradecer à Nossa Senhora porque ela me aguentou muito tempo lá na igreja e hoje estou aqui para isso’”, relembra ela.


A trajetória do casal Airton e Sheile se entrelaça com a tradição de vender artigos religiosos na praça da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Há quase 30 anos, Sheile iniciou sua jornada auxiliando a tia na venda desses artefatos sagrados. Após o falecimento dela, Airton apoiou a esposa com a aquisição de uma barraquinha para que pudesse dar continuidade ao negócio por conta própria. Inicialmente, apenas três bancas compunham o cenário, mas com a expansão da igreja como ponto religioso em Fortaleza, mais comerciantes se uniram às festividades.

 

Ao longo dos anos, Airton, motorista de profissão, dedicou-se a apoiar a esposa nas vendas, aproveitando períodos de férias e o contraturno para contribuir nos dias 13 de maio, uma data especial dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Após se aposentar, ele intensificou seu apoio nas vendas e tornou-se um habilidoso artesão na confecção de terços, enquanto Sheile lidera a produção de camisas e o embelezamento de imagens de santos, itens que se tornaram os carros-chefes de vendas.

 

O casal, em parceria há mais de 20 anos, realiza vendas no 13º dia de cada mês e aos domingos durante as missas, com os dias 13 de maio e 13 de outubro sendo os mais movimentados. Sobre o retorno das vendas, Airton comenta que, mesmo antes da pandemia, a  quantia apurada já vinha minguando. “Dia 13 de maio aqui, a gente apurava 14 a 15 mil, isso com um lucro de 200%. Hoje no dia 13 de maio você apura 2 mil, 3 mil, e olhe lá”, afirma. Mesmo com a queda nas vendas, ele comemora as conquistas advindas da venda de artigos religiosos, como a aquisição de uma casa própria e a graduação e sucesso profissional dos dois filhos do casal.


Centro da Fé

 

A história e tradição no ramo de vendas de artigos religiosos se estende para os proprietários de lojas do setor localizadas no Centro de Fortaleza. Veneible Rocha, dona da loja Casa Xangô, seguiu os passos de seu pai ao montar o empreendimento, assim como o restante do seus irmãos que enveredaram no mesmo caminho de comércio de peças religiosas.

 

A loja é conhecida por suas imagens e elementos atribuídos às religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, mas não são somente essas religiões contempladas no acervo da Casa Xangô. Imagens de santos e de figuras cristãs também estão expostas no amplo espaço.

 

Loja é conhecida por suas imagens e elementos do Candomblé e da Umbanda. Foto produzida pela equipe.

Victor Wagner, funcionário da loja, explica que o empreendimento existe há mais de 30 anos e é considerado umas das maiores lojas de artigos religiosos do Centro da cidade em termos de espaço físico.

 

Quanto aos produtos mais vendidos, Victor revela que as imagens saem com boa frequência, mas que o carro-chefe da loja são as velas, de fabricação própria e de venda exclusiva de lá.

 

Veneible saúda seus clientes fiéis, conquistados no longo período de vivência no comércio. "Eu tenho muito cliente antigo. Sabe por quê? Porque aqui eu tenho uma história. É diferente. Eu não comecei ontem”, destaca a proprietária.

 

Gilna Bezerra, proprietária da loja Bíblia e Opções, também compartilha de uma clientela estável e afetuosa. A comerciante experiente no mercado, construiu a unidade há 25 anos e a gerencia com o seu marido. Os dois são da religião evangélica e, como o nome de sua loja já diz, vendem bíblias e outros livros de cunho cristão.


Prateleira repleta de exemplares da Bíblia Sagrada e de livros cristãos. Foto produzida pela equipe.

A vendedora relata que o que mantém a loja não é o dinheiro. “A gente ama o que faz e quer propagar a palavra de Deus. A livraria evangélica para nós é um ministério, vemos como uma extensão da igreja”, diz Gilna.

 

O propósito religioso, a conexão com os clientes e a história de cada comerciante circundam a venda de artigos religiosos daqueles que compartilharam suas histórias. O comércio da fé vive e se sustenta dessa relação humana e as convicções religiosas que aproximam ainda mais as pessoas de sua fé.

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