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Mulheres no Islamismo

A intolerância e preconceito sobre vozes femininas que falam e não são ouvidas; o verdadeiro papel das muçulmanas na religião

Reportagem por Ana Alice Guedes

Fotografia por Richardson Lael


Amigas de longa data, e companheiras espirituais, Karine Garcez e Maria Solange resumem a relação com o islã como um encontro.


“Antes parecia que não tinha sentido a minha vida e eu encontrei um sentido entrando no islã”, revela Solange.


Revertida há alguns anos, ela conta que conheceu o islamismo por meio de Karine, que foi a responsável por introduzi-la na religião. Já a fotógrafa documental resolveu se tornar muçulmana após estudar por muito tempo os preceitos da fé islâmica.


“Eu me reverti tem uns 17 anos, eu participei de todos os ritos da igreja católica antes disso, mas não conseguia me sentir contemplada. Foi quando decidi buscar outras religiões e comecei a estudar o islã”, explica Garcez.


Amigas e companheiras espirituais. Foto: Richardson Lael.

Datada há séculos, a milhares de quilômetros de distância, em uma língua desconhecida até hoje para os brasileiros, a história das mulheres muçulmanas surgiu para ser marcada por trajetórias de resistências e inquietações.


Conforme a Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (FAMBRAS), é estimado que a população islâmica nacional seja cerca de 1,5 milhão. Sem número atualizado desde o Censo Demográfico de 2010, não há divisão de gênero na estatística. Ainda segundo o grupo, as comunidades islâmicas estão concentradas no estado de São Paulo e Foz do Iguaçu.


Apesar de ter surgido em território árabe, o islã se difundiu pelo mundo, e hoje conta com revertidos espalhados por todos os lugares. Atualmente, a Indonésia concentra a maior população muçulmana do planeta, com cerca de mais 200 milhões de fiéis, segundo o Centro de Treinamento M3 - Missão Mundo Muçulmano.


A difusão da religião acaba ocasionando o choque cultural entre ocidente e oriente, e levanta debates de gênero relacionados à suposta opressão da mulher no islã.


Questionadas sobre como se sentiam sendo mulheres e muçulmanas, Karine responde que em razão do preconceito ocidental, resolveu de fato estudar mais o islã, segundo ela, questões, como, “será que estou mesmo numa religião machista?”, não saiam da sua mente.

Ela afirma que o islã, diferente do que muitos pensam, é uma religião matriarcal, que em um contexto histórico e social isso pode ter se perdido, mas que continua sendo um espaço seguro e de respeito entre mulheres e homens. A ativista social também conta detalhes acerca da poligamia do casamento, e o uso do véu.


“O casamento poligâmico foi permitido para os homens, porque quando eles iam para a guerra, muitas mulheres ficavam sozinhas e órfãs, e como não havia o mercado de trabalho que se tem hoje, para essas mulheres não ficarem vulneráveis, sujeitas a se tornarem prostitutas e exploradas, a religião permitiu que um homem tivesse até quatro esposas”.


De acordo com Garcez, esse direito também leva deveres, e o homem com mais de uma esposa deve tratar todas igualmente. “Ele tem que ter consciência de que ele sentimentalmente vai conseguir atender essas mulheres igualmente”.


Em conversa com a equipe, a professora de comunicação social, direito e psicologia, e pesquisadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (GRACIAS/USP), Flávia Pasqualin, reflete um sobre o papel da muçulmana na sociedade.


“Existe muito preconceito sobre a mulher muçulmana, principalmente, na questão do uso do véu. Só que esse véu é um preceito religioso, ou seja, não é obrigatório o uso, nenhum marido obrigará sua mulher a usá-lo. O alcorão ele vai pedir para cobrir o rosto, o cabelo, o pescoço, algumas pessoas comentam sobre a burca, mas a burca é um costume local, do Afeganistão”.


Passagem do livro sagrado islâmico que reflete sobre o uso do véu: “Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem seus atrativos, além dos que (naturalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus…” (Alcorão, 24:31)

Infográfico produzida por Ana Alice Guedes.

A pesquisadora também explica um pouco sobre o casamento islâmico, outra questão de que gera discussão acerca da suposta submissão da mulher. Segundo ela, o papel do marido e da esposa é muito bem definido no livro sagrado, e de acordo com as escrituras, os dois lados têm direitos e deveres iguais.


“Apesar do homem ser responsável pelo sustento da casa, ele não está isento de ajudar nas tarefas domésticas. Os muçulmanos seguem o modelo de vida do profeta Mohamed e o profeta foi um bom marido”.


Antes do casamento a mulher recebe um dote, e que só ela tem direito a esse benefício, assim, como durante o matrimônio, seu salário deve ser destinado somente para ela. “No alcorão, a mulher tem direito ao divórcio, acho que desde o século X ou é XII, muito antes das ocidentais”, revela.


Membro-pesquisador de um dos poucos grupos brasileiros que estuda o islã, Pasqualin cita o relatório feito pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (GRACIAS/USP), em que aponta as mulheres como principais vítimas de islamofobia no Brasil.


O documento foi desenvolvido durante dez anos por pesquisadoras, através de formulários e questionários. Ele foi o primeiro do país a levantar dados sobre a temática, tendo sido disponibilizado gratuitamente na internet em 2021. (Leia aqui).


A pesquisa, que contou ao todo com 663 participantes, têm fortes relatos do cotidiano das muçulmanas no Brasil. “É muito triste ser brasileira e me sentir estrangeira no meu próprio país”, diz uma das entrevistadas.


O relatório apontou ainda que 92% das mulheres que colaboraram com o questionário afirmaram ter sofrido algum tipo de violência verbal.


“Eu estava dentro do ônibus, estava lotado, quando um cara entrou e começou a gritar dizendo que eu tinha que voltar para meu país. Ele começou a berrar ‘coloquem a saudita para fora do ônibus’ e começou a usar palavras de baixo calão. As pessoas me defenderam. E no Rio Grande do Sul, eu era vista com estranheza, dentro do trem uma moça trocou de lugar porque eu me sentei ao lado dela”, dizia outro comentário no documento.



Com poucos adeptos no Nordeste, o último Censo Demográfico de 2010 mostra a discrepância entre cristãos e muçulmanos no estado do Ceará. Para se ter uma ideia, evangélicos e católicos somavam juntos quase 8 milhões de fiéis, contra apenas 141 muçulmanos.


É importante destacar que a equipe tentou buscar números mais recentes, no entanto, apenas o Censo Demográfico pode mostrar essa estatística. A coleta de 2022 está sendo divulgada gradualmente pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE).

Com mais de 10 anos de coleta, não se sabe ao certo o atual tamanho da comunidade islâmica cearense, afinal: será que houve um aumento desses fiéis?


Karine Garcez e Maria Solange dão rosto e vozes para esse número. Moradoras da Região Metropolitana de Fortaleza, na Caucaia, ambas refletiram durante o encontro com a equipe sobre as dificuldades de ser muçulmana no Estado.


Mulheres vivem a islamofobia nas situações cotidianas. Foto: Richardson Lael.

“Já teve uma vez que eu tava no supermercado fazendo compra e uma mulher tava atrás de mim fazendo o sinal da cruz. A gente não pode questionar, não pode fazer nada, no dia eu não falei nada para ela”, desabafou Solange. 


As amigas explicam que os vestidos longos de mangas compridas ajudam a proteger a pele do sol, como também, são feitos tanto para o frio como para o calor. Para elas, usar o véu e se vestir com modéstia é representar o islã.


“As pessoas pensam que estar todo tempo coberta é um problema, como se isso não fosse uma escolha. Tem muita mulher muçulmana que não usa véu. Que não usa esse vestido. Eu, por exemplo, uso calça e blusa algumas vezes”, ressalta Karine sobre a liberdade do vestuário.



Solange complementa a fala do uso das roupas da religião: “aqui no Icaraí, eu também ando com véu, mas teve vez de eu ir para academia sem o véu, as pessoas não me reconheceram. Como trabalho com público, as pessoas me respeitam demais. Agora têm mulheres que não entendem porque ando toda coberta nessa quentura”.


Apesar das tristes situações de intolerância, é possível ver no olhar das duas muçulmanas, sentadas à nossa frente, o amor e o respeito pela sua fé.


“Eu me sinto muito elogiada e privilegiada de ser uma muçulmana, de ser uma mulher muçulmana, porque eu represento a minha religião aqui no Icaraí”, finaliza Karine.


Conversar com quem tem uma história de fé que atravessa continentes e permeia o mundo, é possibilitar encontros como os de Karine e Solange, duas mulheres, que se tornaram amigas em razão da coragem de ser e acreditar no próprio íntimo.


Mulheres buscam coragem para ser e acreditar em sua fé. Foto: Richardson Lael.

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