
Mulheres no Cristianismo
A fé cristã e a liderança feminina
Reportagem por Nara Santos e Rayssa da Costa
Em toda a Bíblia, apesar das restrições culturais pertencentes à época, as mulheres desempenharam funções de destaque e se tornaram símbolos importantes, assumindo papéis de juízas, rainhas, sacerdotisas e conselheiras.
No cenário atual, as mulheres vêm ocupando importantes cargos em governos, empresas e em diferentes espaços da sociedade civil, mas de que forma a participação feminina em outras esferas sociais influencia a composição das lideranças das igrejas cristãs no Brasil e no Ceará?
O reconhecimento ou o ordenamento de mulheres nas igrejas em posições antes apenas destinada aos homens já é realidade em grande parte das religiões cristãs, mas ainda há muito que se falar de liderança feminina quando se trata de instituições religiosas.
“Pastora, e não mulher de pastor”
No meio evangélico há diferentes doutrinas e costumes em relação à ordenação de mulheres como pastoras. Enquanto algumas denominações permitem que elas assumam a função, outras mantém seu posicionamento tradicional e reservam o altar para os homens, restando às mulheres o título de “mulher do pastor”.
Novas gerações, no entanto, veem esse posicionamento como uma interpretação enviesada da Bíblia, e vêm confrontando essa ideia. Na Comunidade Cristã Videira (CC Videira), denominação evangélica fundada em 2001, na cidade de Fortaleza, pelos pastores Costa Neto e Nenen Costa, a liderança feminina é um dos pilares da congregação.

Pastora de uma das unidades da CC Videira, Jeânia Feitosa, 47, reconhece que há desafios a serem enfrentados pelas mulheres no ministério pastoral, mas ao mesmo tempo, ela sente muito prazer em receber o reconhecimento de sua vocação pela comunidade. “A gente encontra alguns desafios, têm denominações que não veem a mulher como pastora. São doutrinas que consideram o pastor o homem, mas a mulher não, a mulher é a mulher do pastor. Não tem nem nome. Na nossa comunidade de fé, nós não temos isso. Cada uma aqui tem nome, cada uma aqui é conhecida pelo nome”, destaca.
Para Jeânia, a função do pastorado é reconhecida na igreja, mas a atividade vem sendo exercida mesmo antes de receber o título, transcende o espaço religioso e começa na própria casa. “O título não vem primeiro para depois você ser. Você primeiro é, e o título, ele é reconhecido por aquilo que você já faz. Então, pastorear, a gente já faz isso há muitos anos. Eu cuido de pessoas há muitos anos, não só na igreja, mas na minha casa, na minha família, em todos os espaços, porque pastorear é isso”, ressalta.
No meio congregacional ela se sente acolhida, sem dúvidas de que seu ministério é reconhecido com a devida autoridade que lhe foi entregue por meio do certificado da ordenação pastoral. Mas isso não a isentou de sofrer preconceitos. Em uma destas situações, ela não teve permissão, como pastora, de fazer uma visita a um enfermo em um hospital, enquanto o homem pastor foi bem recebido no mesmo lugar.
Panorama da participação feminina nas principais igrejas evangélicas do Brasil
De acordo com a teóloga Liliânia Soares, historicamente a teologia tem recebido a leitura privilegiada dos homens, limitando, assim, o exercício ministerial das mulheres dentro de suas comunidades de fé. “Mesmo algumas igrejas protestantes tendo a mulher no papel de pastora, nas igrejas evangélicas ainda predominam os pastores, ainda predomina a leitura masculina, e isso vai invalidar esse corpo do feminino”, aponta.
Casa, trabalho e igreja: a devoção como uma tripla jornada
A rotina começa às 5 horas da manhã para Francisca Valdiana Rocha Santos, 44, coordenadora de liturgia na Paróquia de São Francisco de Assis, no bairro Canindezinho, em Fortaleza. Devota do santo dos pobres desde a adolescência, ela concilia os cuidados com a casa, o trabalho como diarista e as responsabilidades na Igreja Católica há 23 anos, mesmo sendo a única praticante da religião na família dela.

Também conhecida como Vó pela comunidade, ela coleciona uma lista diversa de funções exercidas sempre com o caminhar apressado e bom humor. O compromisso, no entanto, não se limita somente quando Vó está nos espaços da paróquia, seja em casa por celular ou ao auxiliar comunidades católicas vizinhas. “Eu sempre estou a ajudar a cada um que precisa, eu não abandono nada. Estou sempre ajudando, não só aqui como outras pastorais quando precisa. A mil e uma utilidades, só não tiro a missa”, explica a fiel.
Valdiana reconhece que há desafios na vida religiosa, mas nega que estejam relacionados ao fato de ser mulher. Para ela, tanto trabalho e dedicação são justificados pelo amor e devoção, que foram intensificados na vida dela em momentos de crises, fé e cura. Após receber o diagnóstico de Leucemia, em 2008, o apego com São Francisco ganhou novos sentidos para Vó. Desde então, a relação dela com o santo passou a ser regada com os atos de devoção, como o uso de roupas na cor marrom e a romaria até Canindé, da qual ela participa há 14 anos.

Apesar dos mais altos cargos da hierarquia Católica não poderem ser ocupados pelas mulheres, de acordo com a teóloga Liliânia Soares, os serviços de cuidados e gestão de voluntários nas igrejas são exercidos por mulheres, em grande parte dos casos. “A maioria que faz esses serviços de leitura da palavra, os ministros da eucaristia, a maioria são mulheres. A maioria são mulheres que desempenham esse papel de cuidar, quem vai cuidar do altar, quem vai fazer a arrumação. Tem, sim, essa característica”, explica. A fala de Liliânia expõe a construção histórica da designação dos papéis de cuidado para as mulheres, inclusive no âmbito religioso, exemplificado pela experiência de Valdiana.
