
Mulheres na Umbanda
Questões sociais e históricas acompanham a luta de mulheres na umbanda para a conquista de espaços e de voz na sociedade
Reportagem por Guilherme Martins
Fotografia por Isadora Lima
Visualizar a umbanda é enxergar “luz, caridade e amor”, lema da religião, criada em 1908 por Zélio Ferdinando de Moraes. Essa projeção de coisas boas, no entanto, não reflete o tratamento que os umbandistas receberam durante a história da religião no Brasil. Depredação de templos, ofensas e desrespeito são algumas das consequências que a intolerância ocasiona no país.
A Umbanda é uma religião que mistura vertentes do cristianismo e de religiões africanas, mas sem se apropriar dessas para ser original. Desse modo, a religião ganhou notoriedade e é considerada tipicamente brasileira, agregando contextos e práticas comuns do povo canarinho à devoção umbandista.
Como toda manifestação popular que envolve indivíduos com vivências e costumes próprios, a umbanda não está isenta de questões sociais e de gênero. A realidade das mulheres na sociedade patriarcal é refletida dentro da fé umbandista.
Compreender o papel da mulher na religião em uma realidade dominada pela visão masculina de mundo é um passo imprescindível para que processos de reparação histórica e mudanças sociais que envolvem a superação do machismo e da misoginia em templos sagrados sejam possíveis.
Para a mãe de santo, Tecla de Sá Oliveira, às questões sociais de gênero, como para toda e qualquer mulher, foram atribuídas a ela logo no nascimento. No entanto, mais do que ser mulher em uma sociedade patriarcal, Tecla precisou conquistar espaço dentro da sua religião.
Tecla é uma mulher cearense que se apresenta de maneira imponente, mas com certa delicadeza e honestidade no olhar. A mãe de santo abre o “Templo do Rei Salomão” para nossa visita e nos permite conhecer seu espaço íntimo de adoração.

Tecla é vice-presidenta da União Espírita Cearense de Umbanda (Uecum), fundada em 1967, pioneira no Ceará, e atua há mais de 10 anos promovendo a sua crença em eventos culturais, como o carnaval de Fortaleza e a festa de Iemanjá.
Tecla foi fortemente influenciada pelos pais a vivenciar o umbandismo. Filha de Emanuel Rodrigues de Oliveira e Susana de Sá de Oliveira, dois fiéis à umbanda e responsáveis por feitos históricos como a criação da primeira federação para uma mãe de santo no Ceará, a irmã Júlia.

A influência direta da figura dos pais em sua criação religiosa fez com que a fiel assumisse papéis de peso dentro da umbanda. Tecla já atua há mais de 10 anos realizando atividades sociais e culturais sobre umbanda no Ceará, tendo criado no ano de 2008 o “Maracatu Filhos de Iemanjá” além de ter assumido a Uecum.
A devota nos recebe no “Templo do Rei Salomão” trajando trajes típicos da sua fé, um vestido longo branco com mangas e uma espécie de turbante branco na cabeça em um espaço repleto de imagens e figuras simbólicas para a religião.

Dentro da perspectiva religiosa uma das tradições mais generalizadas é a da mulher como “mãe”, em um sentido mais amplo, fugindo do sentido literal e difundido na sociedade, a mulher como um ser sagrado que pode conceder a vida.
Para a devota, ainda que haja a romantização da participação feminina na fé, ser mulher não é fácil e, por muitas vezes, uma tarefa árdua, dada a representação política e social que exerce dentro da religião em sua cidade.
A fiel abre o coração para relembrar que o machismo e a misoginia ainda são figuras presentes na umbanda. Na visão de Tecla, apesar de todo o simbolismo que a mulher assume na umbanda, a religião ainda está repleta de preconceito de gênero.

Achar a voz feminina em meio a discursos de homens que acreditam ser verdadeiras potências em meio a uma religião que prega o amor e a bondade é uma contradição que existe na devoção. Entretanto, Tecla encara de cabeça erguida e não diminui a voz para a disputa de discursos feitos pelo sexo oposto em espaços sociais de ideias que dificilmente são ocupados por mulheres.
Perceber-se em momentos de disputa de gênero dentro da própria religião é compreender que a luta por direitos e voz é uma tarefa diária e constante dentro e fora de qualquer ambiente, religioso ou não.
Essa vivência é um problema histórico-social que vem sendo debatido ao longo do tempo, mas que perde força quando o combate a essas práticas machistas e misóginas na religião é apoiado por figuras relevantes no país.
Tecla dá voz à emoção ao relembrar o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro, o qual dificultou e resistiu para celebrar religiões de matrizes africanas no Brasil. Mais do que resistir diariamente ao preconceito enraizado é ver a prática ser amplamente difundida por vozes que ecoam o país inteiro. Sentir-se impotente, frágil e sem amparo é o verdadeiro problema para Tecla.
Exercer a crença de modo livre e sem julgamentos é um direito conquistado e assegurado pela Constituição federal de 1988. No entanto, ainda que haja o amparo da lei e medidas que garantam a celebração, atitudes de órgãos públicos ainda refletem o preconceito histórico acerca da umbanda.

O Templo de Salomão liderado por Tecla é um dos membros que promovem anualmente a festa de Iemanjá na Praia do Futuro de Fortaleza, ponto turístico da cidade, o que a apropriação de espaços públicos que outrora não seriam uma possibilidade.
Contudo, mesmo com investimento e apoio, a celebração lida com entraves como a demora para a autorização do evento e atrasos da gestão. A festa de Iemanjá é realizada há 58 anos.
“Tudo depende da gestão, às vezes a gente manda um ofício, mas dentro daquela gestão alguém não gosta da religião e fica dificultando alguma coisa, mas no fim é quase que uma obrigação, até porque somos patrimônio cultural imaterial de Fortaleza”, defende Tecla.
A caminhada de Tecla e sua devoção a umbanda não é uma estrada linear e simples, portanto, foi preciso que a devota buscasse refúgio em sua jornada para que suas conquistas pudessem ser possíveis. A figura materna e a de outras mulheres foram centrais na jornada de Tecla que credita seu amadurecimento e fortalecimento ao apoio que recebeu em seu caminho até o presente momento.

Para além dos ensinamentos aprendidos e passados pelas gerações mais antigas, Tecla compreendeu que a religião é um meio para encontrar e celebrar a fé individual, sendo os templos espaços para culto.
“Deus não deixou nenhuma igreja, ele deixou os ensinamentos dele. Então, a gente tem que tentar cumprir os dez mandamentos, tentar, pois ninguém é perfeito. Mas, a gente deve tentar”, pondera.
Compreender a umbanda como uma religião que acredita no amor, na paz e na união é parte de um processo que vai além do homem, é entender o meio que se está inserido, a sua participação e as relações que as envolvem.
Ser uma mulher na religião engloba questões maiores e mais pontuais do que apenas a adoração e a devoção, a figura feminina persiste e resiste diariamente pela presença e pelo poder de ser ouvida.
Há um incômodo silencioso que deve existir para que o desejo por mudanças surja e a força de combate floresça na sociedade. Modificações significativas nas estruturas de poder não acontecem de modo passivo, é preciso haver compromisso em lutar pelo o que se considera correto.
O antropólogo e estudioso de religiões afro-brasileiras, Jean dos Anjos, exemplifica a visão da mulher para a religião. Jean conta que a figura feminina é essencial para o crescimento da fé pela visão de vida que ela transmite em algumas religiões mais difundidas, como a cristã.

Jean destaca também que o fundamentalismo religioso em conjunto a uma ideia utópica de estado laico, no entanto, ainda aprisiona a liberdade das mulheres, fazendo com que a luta por espaços, voz e livre arbítrio pleno não sejam alcançados sem embates. Com isso, a relação verticalizada da igreja estar no centro do poder segue dificultando a superação de hábitos arcaicos e ultrapassados.
A conquista de espaços físicos é um avanço na apropriação de locais por mulheres que lutam constantemente por reconhecimento em meio a uma disputa de gênero histórica.
“Essas mulheres participam ativamente do movimento cultural e político que a Umbanda proporciona no Ceará. Seja no combate ao racismo religioso, seja na promoção da saúde, seja na difusão da cultura, elas estão à frente das lutas por Direitos Humanos na sociedade cearense”, destaca.
Essa problemática presente na sociedade desde que os papéis de gênero se instalaram na humanidade ressalta a importância de figuras femininas de peso à frente de movimentos que lutem pela igualdade de direitos no meio religioso.
“Na Umbanda e no Candomblé, as mulheres estão em espaços de poder, pois são Mães de Santo e/ou Iyalorixá nos seus terreiros. Nas igrejas evangélicas as mulheres são pastoras, ou seja, também estão em lugares de poder. As mulheres dão o norte nas instituições religiosas, inclusive constituindo fissuras nas esferas de poder”, conclui Jean.
Dados do Censo de 2010 revelaram que o Brasil contava com uma população de 432 mil pessoas que se consideravam umbandistas. Esse número de 13 anos atrás demonstra que essa população não pode ser ignorada, seja por questões de número de indivíduos ou por questões que envolvem o livre exercício da crença.
Essa luta por representatividade que já perdura na sociedade deve envolver, mais do que Tecla e outras mulheres em posições de poder, toda a sociedade em conjunto visando o enfrentamento de práticas preconceituosas.
