
Mulheres de Cura - Mãe Gardênia
Mas elas continuam. Inseridas em contextos diferentes e com malas cheias de memórias.
“Faço bem,
sem ver a quem”
“A fé, você que alimenta ela. Porque se você reza um ‘Pai Nosso’, tem que ter fé. Se você levantar já sem ela, é melhor não fazer nada. Problemas todos nós temos, mas diante da minha fé, é eu acreditar”.
Mãe Gardênia de Iansã, como se apresenta e como será citada neste texto, sustenta de forma convicta essa afirmação. A voz firme e a expressão séria ajudam a salientar seu ponto de vista. Ela se senta confortavelmente em uma cadeira de balanço, frente aos pretos-velhos pintados na parede — estes que são espíritos que se apresentam em forma de idosos africanos que foram escravizados e morreram de velhice.

Dentro do terreiro que hoje é responsável, com vestes tão brancas e limpas, que pareciam emanar uma luz própria, ela visita o passado e o organiza em sentenças, narrando suas vivências na reza e na religião que escolheu seguir, a Umbanda.
Filha de uma mãe de santo, Gardênia começou a incorporar — receber espíritos em seu corpo — aos 14 anos de idade. Duas figuras foram importantes no início dessa jornada: Mãe Balbina e Mãe Maria. A repetição da palavra ‘mãe’ neste texto, inclusive, será inevitável.
A primeira figura citada, Mãe Balbina, era sua mãe carnal. Rezadeira, espírita e umbandista, a mulher era dirigente e fundadora do Centro Espírita de Umbanda Jesus, Maria e José, localizado no bairro São João do Tauape.
“Foi ela que me preparou, que me desenvolveu em todo o processo do meu trabalho espiritual. Me consagrou”, reverencia a matriarca.

Mãe Maria, a outra figura importante, é a sua preta-velha e a rezadeira da casa. Quando começaram juntas os trabalhos, foi avisada pelo espírito sobre o papel que desempenharia: “A partir daquele momento eu ia começar a ter uma missão, a reza. Então eu venho rezando em crianças, pessoas, tudo”.
São 37 anos exercendo a prática, que, por meio de palavras e expressões ao longo de suas histórias, demonstra explicitamente a satisfação que sente em fazê-la. Além de rezadeira, herdou o posto de sua falecida mãe, se tornando a Mãe de Santo do terreiro fundado pela matriarca.
Com uma filha já adulta e um marido que a ajuda em suas obrigações, a curandeira atualmente se dedica apenas ao seu trabalho no centro umbandista. Essa realidade, no entanto, era diferente antes.
Mãe Gardênia trabalhou como agente de endemias da extinta Sucam, onde exerceu o cargo por 18 anos. Deixou de trabalhar na área após um acidente: em um dia rotineiro de checagem, caiu de uma caixa d’água que fazia vistoria e ficou com sequelas na coluna. Mas para ela, nada foi por acaso, tudo tinha um propósito.
“Me afastaram. E aí, fui entender o porquê, toda a preparação. Eu teria que levar essa queda, ser aposentada [para] ficar dentro do terreiro zelando por eles, porque minha mãe ia desencarnar” explica o destino que já tinha sido reservado para ela.
Mãe Gardênia trabalhou como agente de endemias da extinta Sucam, a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, onde exerceu o cargo por 18 anos. Deixou de trabalhar na área após um acidente: em um dia rotineiro de checagem, caiu de uma caixa d’água que fazia vistoria e ficou com sequelas na coluna. Mas para ela, nada foi por acaso, tudo tinha um propósito.
“Me afastaram. E aí, fui entender o porquê, toda a preparação. Eu teria que levar essa queda, ser aposentada [para] ficar dentro do terreiro zelando por eles, porque minha mãe ia desencarnar” explica o destino que já tinha sido reservado para ela.
“Todo nosso caminho está escrito. Sou aposentada por conta do meu problema de saúde, então me dedico de domingo a domingo. Tenho hora para entrar, mas não hora para sair”.

Esse não foi o único caso envolvendo sua saúde que Mãe Gardênia passou. Em uma consulta ao mastologista, ela descobriu que tinha três nódulos nos seios. Sua preta velha, que é a curandeira da casa, lhe disse que ela teria que fazer uma caminhada para reverter a situação.
“Ela não falou em Canindé, mas eu entendi. Fazia a roupa de São Francisco e ia até Canindé. Com o tempo, o primeiro nódulo desapareceu. Fui ao mastologista com seis meses e ele disse ‘Gardênia, você agora só tem dois nódulos, um sumiu’. Mas não era maligno, era benigno. E foi desaparecendo o segundo e agora eu só vou uma vez no ano”, partilha a lembrança.
O tempo de dedicação da mulher ao terreiro está imbricado ao seu ofício como rezadeira. Os métodos que utiliza para ajudar nesse processo são diversos: a reza com a arruda ou manjericão, os banhos de ervas, o perfume de alfazema no fim do processo.
O banho de ervas não é para todos os casos, o momento é quem mostrará se ele é necessário ou não, por meio das “vibrações e energias”. Em outras situações, ela recomenda também que a pessoa procure atendimento médico.
“São três dias de reza, não é só um. É ou de manhã cedo, ou de tardezinha, quando o sol está bem frio. Se for espiritual, eu rezo. Se não, [digo] ‘você tem que procurar o médico’, [e] passamos também [o banho]”, detalha.
Os atendimentos geralmente são marcados, para conseguir conciliar com as outras atividades que desempenha no terreiro. E a demanda é alta. Pessoas de todas as localidades, do país e continentes, procuram por suas preces repletas de fé.
Vasculhando memórias, um caso em específico ganha espaço em sua narração:
”Aconteceu um momento de uma pessoa, ele estava internado há muito tempo no hospital. Todo santo dia eu ia lá e fazia a reza. Quando chegava aqui em casa, trazia a preta-velha e fazia todo o ritual — mesa de cura que chamamos. Fazia o trabalho na peça de roupa como se fosse nele.
Um dia, o médico chegou para a família e disse que dali ele não tinha notícias positivas. E aí, eu falei para eles:
— Olha, a esperança é a última que morre. Porque, quem tem fé, tem tudo. Quem não tem, não tem nada. Mas vou dar continuidade ao trabalho de cura.
Foi assim que eu conheci a família deste rapaz e continuei fazendo o processo, todo dia indo para o hospital — eu, meu esposo e outras pessoas que me acompanhavam. Me entreguei e pedi muito a Deus, ao mundo espiritual, aos preto-velho que dessem vida, saúde e mais uma oportunidade.
Ele passou três ou quatro meses internado. Quando foi um dia que cheguei lá, o médico deu alta. Hoje ele tem um lado deficiente, o esquerdo, mas fala, fuma, anda. Ficou sequelas, mas está contando a história” , finaliza a narrativa da memória.
Outro momento em que a fé se mostrou presente foi durante o isolamento na pandemia da Covid-19 — aqui se referindo à primeira onda, em 2020. Muitas orações foram solicitadas e feitas por causa da ansiedade que se alastrava nas pessoas confinadas.
Dentre esses pedidos, a umbandista relembra o desespero de uma mãe por causa do filho de 15 anos que estava em forte processo de depressão. Os seguidores do centro também necessitaram de cuidados espirituais para se acalentar nessa época.
“Trabalhamos muito. A preta-velha, rezadeira que eu trabalho, um dia passou uns banhos e ele [marido de Gardênia] passou o dia deixando na casa dos filhos da casa, que eram mais de 30”.
Eles receberam banhos de ervas, “para poder acalmar e acalentar”. “Como não podia vir ninguém, eu pegava, trazia a preta velha. Ela rezava e fazia as orações dela”, remonta os detalhes. Os banhos eram preparados e entregues.
Ainda ocupando o lugar da cadeira de balanço, agora com um cachimbo para acompanhar o momento, Mãe Gardênia interpreta uma canção, uma que tem uma reza presente em seus versos, mostrando como ela pode estar presente de diferentes maneiras.
“Cura a sua alma
O seu espírito também
Eu vou pedir ao pai eterno
Nas ora de Deus
Amém
Cura a sua alma
O seu espírito também
Eu vou pedir ao pai eterno
Nas ora de Deus
Amém”
Emendando as fortes palavras de oração, a benzedeira externaliza um pensamento — parecendo esperar o momento certo para expô-los na conversa. A observação é simples, mas firme e salientando mais uma vez sua crença.

As palavras dela designam uma verdade que esta autora também acredita: Todos, sejam rezadeiras, líderes religiosos — como pastores e padres — nascem designados a uma missão, independente da crença que seguem. Mas muitos se deixam consumir por palavras maldosas e destilam preconceitos que se internalizam em seus corpos.
“Muitas vezes dizem ‘a umbanda faz o mau’. O mau está no coração das pessoas, não está em religião nenhuma”, são as palavras da mulher de cura. Sim, a maldade está naqueles que a propagam, não no amor e fé que eram para guiar os caminhos destes. A curandeira sabe disso e segue, diariamente, praticando sua filosofia.
“Então digo para você: sou rezadeira e sou de um centro e umbanda. Faço o bem, sem olhar a quem”, sustenta Mãe Gardênia.
Perfil por Ana Beatriz Teixeira
Fotografia por Pedro Mairton




