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Mulheres de Cura - Dona Rocicleia

É na fé que se encontram forças para curar.

“Fé é que cura”


“Comecei a rezar nos bonecos. Dizia que eles estavam com quebrante, mal olhado e vento caído. Aí chegou uma pessoa na minha porta e disse: 

— Ah, você vai rezar na minha menina. — E eu:

— Não, sou rezadeira não. — E ela disse:

— Não, você vai.

Aí pronto. Eu tinha 4 anos de idade e ‘tô esse tempo ‘todim’ na reza”.


Acomodada em um sofá na entrada da casa que hoje reside, Rocicleia Castro da Silva, de 57 anos, abre o livro de memórias que está guardado em sua mente e narra a trajetória de rezas e bênçãos concedidas aos devotos que a procuram. São muitos, talvez até incontáveis, que a seguidora da fé católica já realizou com seu dom.


A prática nunca lhe foi estranha, a avó de Rocicleia também era uma rezadeira e em seus últimos momentos no plano terrestre, comunicou à pequena menina que ela deveria iniciar a reza, que continuaria o que já era feito pela senhora. Mas não era algo que ela tinha interesse em se envolver na época. 


A recusa inicial não é sem motivo, ela a justifica com a mediunidade que revela ter. Já via coisas demais, se envolver na reza seria apenas mais complicado para a cabeça da criança de 4 anos. Tão nova, preferiria evitar e negou veemente as palavras da vó. 


O destino, contudo, já estava escrito, e a senhora rebateu as palavras da neta, reforçando que ela ocuparia seu lugar benzendo crianças. “Com três dias, ela já tava muito mal e bem velhinha, falou de novo. [E eu] ‘não, vó, não vou me meter com isso. Dá muita dor de cabeça'”. 


Dona Rocicleia em seu lar de cura e trabalho. Foto: Anna Beatriz Gomes.

A segunda recusa não foi motivo para a idosa desistir, continuou a insistir para que a mais nova herdasse seu ofício, que Rocicleia rezasse em crianças. E ela o fez, cedeu ao clamor. Primeiro em bonecas, mas depois em bebês, jovens, adultos, idosos e até animais. Começou a benzer na casa em que morava, no Morro do Moinho, localizado no alto do bairro Jacarecanga depois do Cemitério São João Batista na região, em uma Fortaleza histórica.


Nenhuma cerimônia ou benção foi passada, apenas as palavras convictas de que Rocicleia seria a próxima rezadeira da família. As frases de fé utilizadas — orações e clamores de benção — são as mesmas, seguindo o fluxo temporal, passando de uma geração para a outra. 


Desde que assumiu o lugar da avó, já se vão 53 anos de reza somados. Desde a infância, concilia o ofício informal com sua vida pessoal — os pais nunca se incomodaram. Atualmente, exerce a ação paralelamente ao trabalho como doméstica na casa em que vive. Rocicleia mora com os patrões no bairro Monte Castelo, sem marido ou filhos para se preocupar, já que ela nunca os quis.


“Negócio para dar dor de cabeça. Eu criei meus irmãos e meus sobrinhos. Pra que casar? To tão sossegada”. 

Sustenta ela. Após contar que criou os irmãos, a senhora acrescenta que trabalhou desde jovem, ajudando os pais no cuidado de seus doze irmãos.


Apesar de morar no trabalho, ela mantém uma casa no bairro Ellery. Outra obrigação preenche seus dias: toda manhã, ela vai ao local para cuidar do irmão doente e retorna para o local de trabalho apenas à tarde. 


Entrando na reza, revirando um pouco mais sua bagagem, ela retira histórias diversas das bênçãos que já fez, ilustradas por inúmeras pessoas de diferentes lugares que, viajando até ela ou por um clique no celular, chegam a mulher de 57 anos com seus apelos.


Dona Rocicleia guarda informações de todos que receberam a sua reza. Foto: Anna Beatriz Gomes

“Tem gente de todo canto. O pessoal liga pra mim e eu rezo só pelo telefone naquela pesssoa”.


“Salvador, Belém, Rio [de Janeiro], São Paulo, Canindé, Juazeiro”, lista algumas cidades em que moram pessoas que costumam atender remotamente. E contextualiza em como essas elas chegam até seu contato: “É porque vem uma pessoa e indica para outra pessoa”.


A dinâmica de atendimento é constante, sem um horário específico para realizar a reza. A qualquer momento alguém pode bater em sua porta, vindo de qualquer bairro da capital ou estado do país, e pedir para ser benzido pela mulher. 


“Tem gente que eu conheço que reza só até 17h30, mas ninguém vai saber o horário que a criança está doente. Como é que eu vou adivinhar?”, questiona retoricamente.


As palavras proferidas ganham corpo no meio da conversa. Um trio chega em sua porta, chamando seu nome: duas mulheres que levavam um bebe para ser rezado. O horário já estava marcado, a benzedeira apenas aguardava, assim como esperou anteriormente esta autora que ia ouvir sua história.


Quando os olhos pousaram no trio, Rocicleia levantou calmamente e caminhou até o canteiro onde ficam os raminhos utilizados na hora da reza. Sem perfume ou banho de ervas, apenas o ramo verde — que não tem uma espécie específica, podendo ser de manjericão ou arruda, por exemplo — e suas palavras de clamor. 



Após recolher o galho com as folhas, similares às de arruda — concentrada em presenciar o momento que se desenrolava, esta autora não perguntou — apertou o botão do controle que controla o portão da garagem e foi para fora da casa. 


Conduzindo o trio, que já conhece bem o caminho, atravessou o curto espaço entre a residência e a pracinha, local em que ela realiza a reza. “Antes da pandemia eu rezava aqui dentro [na casa]. Aí era muita gente e ela [disse] 'não, reze ali na praça'", detalha o motivo da benção acontecer em um local público.


O local é público, mas as palavras são íntimas daquele momento. Rocicleia não revela o que fala no momento. “Quebra as forças”, é o que ela diz, caso compartilhe. 


Visitas como essa só não são aceitas em dois momentos: meio dia e seis horas da noite. Pois a hora em que muitos fazem suas refeições tem um significado diferente no plano espiritual, é a hora dos anjos. E quando as crianças se repousam e muitos escutam a ave-maria nas emissoras de rádio, é porque chegou a hora de respeito às almas. Guardadas essas ressalvas, a senhora não se importa se o pedido aparecer às 7 horas da manhã ou às 22 horas da noite.


Dona Rocicleia próximo da sua santinha que estampa caderno de reza. Foto: Anna Beatriz Gomes.

Após finalizar a benza, se despediu e voltou ao sofá para prosseguir a viagem no tempo na própria cabeça. Na retomada do passeio, o livro que guarda informações de algumas das pessoas que já passaram por suas mãos, é mencionado e mostrado. Com Nossa Senhora enfeitando a capa, as linhas dos papéis são preenchidas por nomes, endereços e telefones, sem definição de quando começaram a ser catalogados.



Os casos não estão registrados apenas fisicamente. Dona Rocicleia sustenta que guarda tudo em sua mente. Um deles é o que ela define como o “mais marcante” de sua trajetória. “Foi um meninozinho com quebrante. Hoje ele já é pai”, é como começa, se preparando para mergulhar em mais uma lembrança. 


“Uma senhora morava aqui no bairro Ellery e passou um tempo em Sobral. Quando chegou na cidade, deram um menino a ela. Ela passou uns três meses lá, morando um tempo na casa da família dela”. Uma vizinha desconfiou que a recém-chegada de Sobral tinha um bebê, mas esta negava.


"Ai a mulher pegou uma escada, subiu e a outra estava dando mingau a criança”, prosseguindo, ela remonta com palavras o ocorrido. Após a mulher espionar e descobrir a existência da criança, este ficou doente. Uma outra rezadeira garantiu que o menino não sobreviveria, mas Rocicleia — que foi chamada depois — proferiu o contrário. 


“Eu fui e disse: ‘se ele morrer até 5h30, eu dou o caixão e o lugar para enterrar. Pode deixar comigo’", relembra com a mesma assertividade de quando deu garantias à pobre mãe desolada. De fato, o menino sobreviveu e hoje está perto de seus 30 anos, com uma família formada.



"É a fé que cura, eu não tenho esse poder. Se você tem fé em mim, dá certo". Foto: Anna Beatriz Gomes

Curas como estas só são possíveis pela fé que aqueles que a procuram tem em seu dom. "É a fé que cura, eu não tenho esse poder. Se você tem fé em mim, dá certo. Mas se você rezar só por rezar, não adianta. Você tem que ter fé”, sustenta, também ressaltando que o processo não pode ser cobrado. 


“Ninguém compra reza. Agora se você tiver o coração bom e quiser doar uma lembrança ou no Dia das Crianças dar um brinquedo para fazer minha festa, aí eu recebo de todo coração”, detalha, contextualizando que apenas aceita as doações destinadas às crianças que visita no mês de outubro e no Natal. 


As celebrações citadas se referem a outras ações realizadas, além de seu trabalho como doméstica e rezadeira. Ao longo do ano, ela arrecada doações de brinquedos e roupas, que são repassadas a crianças de bairros como Monte Castelo e Ellery, em datas como Natal e Dia das Crianças. 



Com o celular na mão, ela mostra a si mesma vestida de Papai Noel, para alegrar e levar luz ao feriado dos mais novos. “Deus deixou [a reza] para a gente fazer caridade”, destaca, mostrando que a cura não é o único ato de benevolência a ser feito a partir da reza.


É esse sentimento, de continuar usando o “dom que o Senhor lhe deu” para ajudar as pessoas, com a benza e as doações, que motiva Rocicleia a continuar seu trabalho de luz diariamente, sempre seguindo e mantendo a sua fé.




Perfil por Ana Beatriz Teixeira

Fotografia por Anna Beatriz Gomes

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